Atividade da Natureza

on quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Em contraste com as visões modernas de natureza, busco em meu trabalho formular um modelo interpretativo gadameriano em que aflore uma estrutura especulativa linguística, assim permitindo que a Natureza venha-à-fala. Para Gadamer (1995), tal processo lembra a dialética grega. Nela, o conhecimento de alguma coisa não era resultado de uma atividade metódica da consciência, mas, em vez disso, algo que a própria coisa fez e que o pensamento sofre. Apesar da tentativa de Platão de sair do reino da linguagem em sua formulação da Teoria das Formas, no pensamento grego a coisa mantinha certa dignidade da coisa": "Podemos ver que tal atividade da coisa, o vir-à-falado significado, aponta para uma estrutura universal, a saber, a natureza básica de tudo para o qual é dirigida a compreensão. Ser que pode ser compreendido é linguagem" (p. 474). A hermenêutica projeta assim suas capacidades de volta para a realização ontológica do que é interpretado. Pode então ser possível falar em uma linguagem da Natureza, uma linguagem da Arte etc. A Natureza torna-se desse modo inteligível. Mais importante: essa visão contrasta agudamente com os resultados da ciência moderna. Como observa Gadamer.

(...) assim como a ciência moderna não vê a natureza como um todo inteligível, mas como um processo que não tem nada a ver com os seres humanos, um processo em que a pesquisa científica lança uma luz limitada mas confiável, viabilizando o controle, assim a mente humana, buscando proteção e certeza, coloca a compreensão científica contra a "incompreensibilidade da vida", este semblante amedrontador (Idem, p. 239)

Na hermenêutica é perfeitamente legítimo falar em um "livro sobre a Natureza", uma vez que tudo o que pode ser compreendido é de fato linguagem (Gadamer 1995). Isso não é dizer que um segundo ser emerge quando a Natureza vem-à-fala, mas sim propor que o que se apresenta como coisa pertence a seu próprio ser. "Seu próprio ser físico existe unicamente para desaparecer no que é dito. Da mesma forma, o que entra na linguagem não é algo anterior à linguagem; em vez disso a palavra fornece sua própria determinação" (idem, p. 475).

Boa parte disso pode ser dita quanto à interpretação da obra de arte. O ser de uma obra de arte não é um "ser em si mesmo" que difere de sua reprodução ou da contingência de sua aparência. O significado de um evento, texto ou mesmo da Natureza não é um objeto que exista por si só, pois há sempre um mediador, um intérprete entre o passado e o presente. A função da hermenêutica consiste, portanto, na tematização dessa tensão. Nossa relação com o mundo é, por sua própria natureza, verbal do ponto de vista hermenêutico da linguagem. O "ser em si mesmo" é meramente abstração. A interpretação da Natureza pode realmente ser mais bem compreendida com referência a algumas analogias relativas à experiência interpretativa da arte e à experiência interpretativa arte e à experiência interpretativa da história. Os procedimentos objetificadores das ciências naturais, buscando conhecer sem reconhecer a dimensão linguística de nossa experiência de conhecimento, buscam simplesmente a certeza e uma crescente dominação do ser. E nenhuma outra forma do conhecer é válida. Entretanto, como já foi observado, Gadamer argumentou que a compreensão da obra de arte requer uma postura diferente, em que à coisa é conferida certa dignidade - "a coisa mantém sua dignidade". Na Parte I de Verdade e método, Gadamer (1995) mostra que uma compreensão genuína da obra de arte ocorre através da liberação da arte e da história do objetivismo. Os conceitos de arte e história são formas de compreender "que emergem do modo universal dos seres hermenêuticos como formas de experiência hermenêutica" (p. 476). Essa experiência hermenêutica de uma compreensão da arte ocorre previamente à atividade refletiva.

Como observa Flickinger (Apud Almeida, Flickinger e Rohden 2001), "trata-se aqui, sempre, de algo ou de alguém que se encontra à nossa frente e, como tal, dirige-se a nós e inquieta-nos, devido única e exclusivamente ao fato de ser outro que nós mesmos" (p. 28). Proponho que deveríamos buscar interpretar, compreender a Natureza da mesma forma que compreendemos uma obra de arte. "A obra de arte é um convite insistente a que nos deixemos sugar para dentro do espaço de um mundo novo alheio" (idem, p. 33). Nesse espaço ocorre o desfazer dos hábitos que anteriormente determinaram nossa postura antiecológica diante da Natureza.

O conceito de jogo é particularmente importante para melhor compreendermos a experiência hermenêutica, pois seu modo de ser é o da auto-apresentação. O ser estético também depende da própria noção de apresentação. A Natureza, por sua vez, não será ouvida a não ser que nos comprometamos com ela, a não ser que tenhamos a vontade de ouvi-la. Isso não quer dizer que a Natureza careça de autonomia, mas que a Natureza, assim como o ser estético, adquire seu ser exatamente no ato da auto-apresentação.
Tornada como chave decifratória à experiência hermenêutica, a ontologia da obra de arte anuncia os elementos fundadores do compreender. São eles a solicitação do estranho, uma disposição de entrega ao aberto e à linguagem, esse horizonte intransponível de nosso encontro com o mundo. (Apud Almeida, Flickinger e Rohden 2000, p. 44).

A questão é, pois, que, a não ser que o intérprete seja interpelado pela coisa, sendo esta unia obra de arte ou a Natureza, ele jamais teria a permissão para buscar compreendê-la. É importante enfatizar, então, que o que buscamos compreender não se mantém estático. Essa compreensão será possível somente se envolver respeito pela dignidade, pela alteridade daquilo que queremos compreender. Aquilo com o qual estamos familiarizados não nos estimula a investigar. E é por meio da investigação que o sujeito emerge além de seus próprios limites. A compreensão só será possível se envolver respeito pela alteridade do Outro que buscamos conhecer. O processo de questionamento necessitará de respeito pelo Outro em sua diversidade. Esse processo só pode ocorrer quando nos comprometemos com o diálogo com a Natureza como urna verdadeira troca de experiências.
Gadamer (1995) explica esse respeito pela outridade com referência ao jogo. O jogo para ele é um modelo estrutural de diálogo. No jogo os parceiros se testam. Na verdade. Gadamer sugere que, para os que estão verdadeiramente envolvidos no jogo, a experiência é de "auto-esquecimento". Eles perdem o rastro de seu próprio ser, por estarem concentrados no jogo. Para Gadamer, isso serve corno perfeita analogia do ato da compreensão.

Os gregos definiam como Kalon (coisas belas) aquelas cujo valor era evidente e cujo propósito era inquestionável. "Elas eram desejáveis por si sós (di'haouto haireton) e não, como as coisas úteis, por algum outro motivo" (Gadamer 1995, p. 477). Essas coisas tinham um valor intrínseco. Em contraste, os modernos argumentam que a mente humana artística define as coisas como úteis ou belas. Esse modo de compreensão mantém certa analogia com a explicação da Natureza para a ciência moderna. A atitude fundamental da ciência é a dominação do ser.

A beleza da Natureza perdeu sua prioridade a ponto de ser concebida como reflexão da mente. (..) A ciência admite a beleza da natureza, da arte e o prazer abnegado que estas conferem - mas apenas em suas próprias fronteiras, as fronteiras da dominação da natureza. Ao descrevermos o inverso da relação entre a beleza da natureza e da arte, discutimos a mudança através da qual a beleza da natureza perdeu sua prioridade a ponto de ser concebida como reflexão da mente. (Gadamer 1995, p. 480)
Gadamer argumenta que a Natureza (o não-eu) perde a dignidade que os gregos lhe atribuíram no mundo das coisas belas, o Cosmo, e torna-se um espelho do conceito de arte. É necessário compreender algumas implicações do conceito grego de beleza para a hermenêutica. Platão explicou em Filebo que a beleza não é simples simetria, salientando que sempre está relacionada à noção de "reluzir". A beleza tem o modo de ser da luz. Gadamer propôs que o reluzir de algo surge quando aparece aquilo em que a luz reflete. A beleza, portanto, tem o modo de ser da luz, do reluzir. E a luz que faz isso acontecer é a luz da palavra. A metafísica da luz serve, então, para mostrar precisamente que tipo de relação guia a pesquisa hermenêutica. Ainda assim, isso serviria para restaurar o platonismo? A resposta é não, pois é perfeitamente possível separar a estrutura da luz de uma metafísica neoplatônica e, de fato, da metafísica crista de onde se origina. Já na interpretação do Gênesis de Agostinho, encontramos os elementos da compreensão de uma interpretação especulativa da linguagem em que a multiplicidade do que ocorre no pensamento deriva unicamente da palavra, Além disso, Gadamer acredita que a filosofia grega pode ser particularmente produtiva para a hermenêutica, pois propõe que o "ser é auto-apresentação e que toda compreensão é um evento" (1995, p. 484). Duas outras questões podem ser colocadas para uma compreensão da metafísica da beleza: o esplendor do belo e a clareza do inteligível.
Tais considerações do modo de ser do esplendor do belo levam-nos ao entendimento de que o modo de ser do esplendor do belo tem o caráter de um evento. Até esta altura torna-se possível mais uma vez justificar a primazia da atividade da coisa (Natureza) na experiência hermenêutica. Mais importante, essa postura contrasta radicalmente com uma consciência metodológica moderna que busca controlar a coisa.

Na experiência hermenêutica, "a coisa mesma compele-nos a falar sobre o evento de uma atividade da coisa" (Gadamer 1995, p. 485). A conexão entre a compreensão e o belo, desse modo, bem fácil de apreender. O processo pode ser explicado dizendo-se que o ato de compreender é semelhante ao de acender a luz, processo em que tudo que está sendo analisado é de súbito aumentado. A forma de o logos grego expressar a Fundamentação da experiência é inevitavelmente fragmentada. Todavia, foi precisamente de uma tradição platônica que “foi desenvolvido o vocabulário conceitual exigido para o pensamento sobre a finitude da vida humana” (idem, pp. 486-487). A ideia platônica de beleza e a universalidade da hermenêutica estão intimamente ligadas. O modo de ser do belo é característica do ser em geral. Para Gadamer (idem, p. 487), "se partirmos da visão ontológica básica de que ser é linguagem i.e,, auto-apresentação - como nos revela a experiência hermenêutica do ser, então segue que o caráter do evento do belo é a estrutura-evento de toda a compreensão". Gadamer apresenta, desse modo, um Platão livre do elo com a Doutrina metafísica da Forma, um Platão para quem o elemento essencial do belo, aletheia, significava que o belo se revelasse em seu ser, que ele apresentasse a si mesmo.

A auto-apresentação é o verdadeiro ser da obra de arte, bem como da Natureza. É importante reafirmar que se trata de auto-apresentação da Natureza e não de representação, um conceito moderno e objetificante. O conceito de jogo é essencial ao ato de compreensão. A compreensão é, desse modo, não uma atividade técnica, mas uma experiência genuína em que nos comprometemos com algo, como a Natureza, que, por sua vez, se apresenta como verdade. Esse compromisso ocorre na interpretação verbal, e as palavras que trazem algo para a linguagem são elas mesmas um evento especulativo. Além disso, essa característica da compreensão reafirma a "dignidade da coisa". O significado da coisa é verdadeiramente auto-expresso - não pertence ao falante nem ao que é falado. "Tudo que entra na linguagem, e não apenas o poético, tem sobre si algo desta qualidade da auto-atestação" (Gadamer 1995, p. 489).

Trecho do meu livro "Em Busca da Dimensão Ética da Educação Ambiental"
Mauro Grün - Doutor em Ética e Educação Ambiental pela University of Western Australia

Script da vida de Mauro Grün

on quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Mauro Grün fez o ensino fundamental e médio em escola pública, Colégio Estadual Presidente Castelo Branco (Castelinho). Lembra de muitas amizades como Luis F. Johan (lingüiça), Paulo Aires e Gavuto (Gabriel Aires) e Tano (Luis Cristiano). Morou em Lajeado até 1984. Na adolescência viveu momentos de grande rebeldia contra o status quo da sociedade Lajeadense e montou uma banda de Rock com Ricardo Arenhaldt (bateria), Vico Marmitt (baixo), Assis Barros (poeta) e guitarra solo; no repertório muito Beatles, Stones e composições próprias. “Éramos ingênuos e rebeldes, pensávamos que poderíamos mudar o mundo através da música”. Participamos do l Musivale (junto com Luis Carlos Barros).

Hoje Mauro declara ter se reconciliado com Lajeado. “A cidade tem uma ótima qualidade de vida”.  Tem o teatro do SESC e o espaço cultural Dr. Dewes. Cita como opções os músicos e amigos Solon Chaves, Alex Lima, Max Lima e a bela voz de Cristiana Pretto, além, é claro, de seu mano Marquinhos Grün, baterista da Orquestra de Teutônia e professor de bateria no CEAT (como atividade curricular).

Assis Barros Filho e Mauro Grün

Com a morte prematura de Assis Barros, companheiro inseparável de poesias, músicas e amizade, Mauro decide se mudar para Porto Alegre para cursar filosofia na UFRGS. No seu primeiro dia em Porto Alegre ganha o livro “Morangos Mofados”  (Caio Fernando Abreu) e a “Metamorfose” (Kafka) de sua namorada Graça Silveira. Devorei. Voltei a Lajeado dizendo “Paris não é uma festa” (conto de Caio).
No curso de filosofia fez muitas amizades; Julio Bernardes, Reginaldo, Antonio Augusto Goulart, Artur (Kantiano de carteirinha), João Cleo (grande poeta) e Renato Sartori, com quem lê Miler. Ficamos impressionados com a força de sua interpretação do gênio de Dostoiévski. Já na aula inaugural no curso de filosofia, proferida pelo professor Cirne Lima, ficou tudo muito claro. “Bem vindos a Europa”, disse ele, “pois esse é o nosso nível de exigência”. Na filosofia se impressiona com a maestria e brilhantismo do professor Balthazar Barbosa Filho com quem estuda Descartes, História da Filosofia, Filosofia Moderna e Filosofia Analítica.

Professor Balthazar Barbosa Filho

Durante quatro anos morei numa República, uma velha casa na Luis Afonso, cidade baixa, com mais trinta e dois estudantes. Todos marxistas stalinistas, menos eu e o sociólogo Yuri Azeredo. Nós cultivávamos algumas formas de anarquismo (Kropotkin). Muitas vezes as assembleias em Casa iam até às cinco da manhã. Eu e o Yuri Azeredo não aceitávamos o estatuto da Casa do Estudante e apregoávamos a vida comunitária sem uma rígida divisão de tarefas. Ou seja, cada um poderia fazer o que quiser. Na José do Patrocínio morava outro anarquista, diretor de teatro e amigo, Paulo Flores, do grupo Oi Nóis aqui Traveis, no final eu e o Yuri acabamos derrubando o estatuto, a vida melhorou e todo mundo começou a se dar bem.

Quando me formei em filosofia me aproximei muito do amigo Luis Gomes, hoje editor da Sulina. Eu e o Luis Gomes passamos por muitas dificuldades financeiras. Nos encontrávamos quase todos dias para criticar à Escola de Oxford. Tenho saudades daquele tempo. Um dia o Luis me aparaceu com livro a Miséria do Cotidiano do Juremir Machado e perguntou “Mauro, ainda existem out-siders? Devorei o livro do Juremir, às páginas pareciam ter grudado em meu peito.

Desde que retornou dos Estados Unidos, Mauro voltou a morar com seus pais, Ilson (pigico) e Marlene. Seus melhores amigos são Sergio Korbes (zebrinha), Lele Bosse e o artista plástico Paulo R. Zart (Passarinho). Hoje Mauro Grün trabalha a ideia de um livro que trata da convivência simultânea de sentimentos como solidão, disciplina filosófica, loucura e razão. É de cunho biográfico, mas contará com citações diretas de Descartes e Samuel Beckett (essa parte do manuscrito será submetida a apreciação dos filósofos Hans-Georg Flickinger e Ernildo Stein. 

Trata de acontecimentos verídicos ocorridos em 1996. Morando sozinho na Oceania (seu flatmate havia viajado para India), Mauro procura o Psiquiatra Rod Brown e afirma estar sofrendo de um fenômeno chamado repressed memory. Os anos oitenta e setenta passam como um filme em sua mente. Envolto em pensamentos delirantes, o filósofo embarca para Los Angeles a procura de seu passado, é encontrado vagando sem destino no Aeroporto, há três meses sem fazer a barba. Um comandante da Varig o reconduz ao guichê de passagens e emite um ticket a Porto Alegre, onde é encontrado por Marquinhos Grün.

De volta a Lajeado encontra aquele que seria o maior amor de sua vida, Fabiana Donadel e se converte ao Cristianismo, de volta a Australia, Mauro é internado no Perth Royal Hospital, onde sofre um surto psicótico. Nessa época fica aos cuidados de médico budista do Sri Lanka e o filósofo Andrew Brennan e Norva tornam-se seus melhores amigos. O livro retrata a profunda dor de um ser humano que perde a coisa mais importante na vida de um filósofo; a razão.

Hoje Mauro se encontra aos cuidados do Dr. Leandro Luz e faz terapia com a Dr. Luisa Isabel D. Gimeno. Divide o seu tempo entre Lajeado, Porto Alegre e a praia dos Ingleses, onde mora sua filha Isabel, a maior alegria de sua vida.


É autor, entre muitos outros artigos, de “Gadamer and the Otherness of Nature: Elements for an Environmental Education”. Human Studies (2005) 28:157-171

Raízes Filosóficas da Crise Ecológica

Gadamer (1995) afirma que a filosofia grega inicia precisamente com a compreensão de que a palavra é simplesmente um nome e como tal não representa um ser real. Gadamer argumenta que, em Crátilo, Platão buscava estabelecer a relação entre a palavra e a coisa. Sócrates, por sua vez, vê o logos como o aparecimento e a manifestação da coisa. Consequentemente, a fala constitui o verdadeiro locus em que a linguagem tem a capacidade de realizar seu pleno potencial. A verdade de alguma coisa reside na fala. Crátilo questiona a relação entre a palavra e o objeto. Contrário à sugestão contida em Crátilo, Sócrates coloca que é impossível saber completamente o significado de um nome contido na linguagem. Crátilo confirma a desvalorização da linguagem que Platão opera através da defesa da Teoria das Formas. Nela, Platão propõe duas teses: "a convencionalista, defendida por Hermógenes, que sustenta a justeza e a correção dos nomes dos objetos como meramente uma convenção e acordo" (384d), e "a naturalista, argumentando que há uma correlação entre os nomes atribuídos às coisas e as coisas em si (383a)" (Paviani 1993, p. 17). Em última análise, essa aporia leva a uma admissão dos aspectos de ambas as hipóteses. Na leitura que faz de Platão, Gadamer (1995) propõe que a questão presente em Crátilo relaciona-se a ser a palavra simplesmente um signo ou ter uma relação significativa com a imagem. A conclusão proposta em Crátilo é de que "o logos representa a esfera da noética na variedade de suas associações, então a Palavra, assim corno o numero, torna-se o mero signo de um ser que é bem definido e daí pré-conhecido" (p. 412).

O signo é desse modo, aquilo que se apresenta em sua própria ausência. Consequentemente, a palavra não é um signo puro nem uma cópia de um objeto.
A linguagem matemática dos signos não pode ser concebida sem a linguagem viva do diálogo para introduzir um conjunto de convenções. Desse modo, Gadamer argumenta que a matemática não é, de modo algum, uma linguagem. O desenvolvimento de uma terminologia científica é uma fase desse processo de introdução de um conjunto de convenções. "Um termo técnico é sempre algo artificial na medida em que a Palavra é formada de modo artificial - como é mais frequentemente; uma palavra já em uso tem a variedade e o alento de seus significados extirpados e lhe é atribuído apenas determinado significado conceitual" (idem, p. 415). O significado vivo das palavras contrasta radicalmente com o significado dos termos técnicos e da linguagem científica (...)

O sonho da modernidade tem sido o de ser o simbolismo da matemática capaz de superar a contingência da linguagem histórica. A linguagem, no entanto, é mais do que um mero sistema de signos que denote a totalidade dos objetos. A linguagem técnica, em contraste, é completamente separada do ser dos objetos aos quais se refere. A esta altura torna-se mero instrumento de subjetividade. Esses níveis abstratos de formulação levam, portanto, à criação de uma linguagem artificial. Gadamer argumenta que esses níveis de abstração na verdade contradizem a própria natureza da linguagem: "A linguagem e o pensamento sobre as coisas estão tão ligados que é uma abstração conceber o sistema de verdades como um sistema anterior de possibilidades do ser para o qual o sujeito significante selecionasse signos correspondentes" (1995, p. 417).

Na realidade, no entanto, buscamos a palavra certa ou a palavra mais capaz de conter a análise de determinado objeto, para garantir que tome a forma na linguagem. O logos está ligado à linguagem. O falado existe apenas na íntima relação entre a palavra e o objeto. Importante: a filosofia grega buscava estabelecer a visão de que a linguagem não possui um ser. Poderíamos argumentar, portanto, que a pretensão de uma correlação de nomes proposta no Crátilo foi, de fato, o primeiro passo no sentido da criação de uma moderna teoria instrumental da linguagem. Gadamer, no entanto, acredita que a história do pensamento ocidental contenha a possibilidade de garantia de que o ser da linguagem não deveria ser completamente esquecido. Ele refere-se aqui à noção cristã de encarnação. Pois a encarnação está intrinsecamente ligada à questão da palavra. O que realmente importa é, então, a relação entre a fala e os pensamentos humanos. Se a palavra torna-se carne, a linguagem tem uma significância e uma dimensão estranhas à filosofia grega. "A unicidade da redenção introduz a essência da história no pensamento ocidental, traz o fenômeno da linguagem de sua emersão na idealidade do significado e apresenta-o à reflexão filosófica. Pois, em contraste com o logos grego, a palavra é puro evento (verbum proprie dicitus personalites tantum)" (Gadamer 1995, p. 429).(...)

Em seu Comentary on John, Whitelaw (1993. p. 4) observa que, com o advento do cristianismo, João não usa mais o logos no "sentido da ratio, razão, pensamento da filosofia grega, mas de oratio, fala, discurso". Todos esses componentes são fundamentais para uma compreensão da noção que Gadamer (1995) desenvolve na Parte III de Verdade e método.  A noção de linguagem enquanto evento. Consequentemente, Gadamer estende tal noção dinâmica de linguagem e compreensão em sua interpretação de Agostinho e Tomás de Aquino. O encontro entre a teologia cristã e a filosofia grega representa, desse modo, a história subsequente do conceito de linguagem no Ocidente. João dá o primeiro passo para a construção de um conceito não-instrumental de linguagem. Emerge uma nova orientação entre Pai e Filho, entre o Espírito Santo e a palavra. Agostinho e a escolástica buscavam explicar o mistério da Trindade. Preocupavam-se especialmente com a palavra secreta e com a relação entre esta e a inteligência. Gadamer (1995) salienta que o que é significativo nesse processo é que a palavra em si não é nada próprio, nem busca ser nada em si mesma; em vez disso, a palavra só pode existir em sua revelação. Isso é singularmente relevante para as concepções contemporâneas de Natureza, pois, para Heidegger, a Natureza só existe em sua revelação. Não estou dizendo que é necessário ser cristão para compreender a Natureza, mas sim que o encontro entre a filosofia grega e a teologia cristã oferece poderosos insights para uma compreensão não-instrumental da Natureza. (...)

Para a escolástica, Agostinho e Tomás de Aquino a palavra temo caráter ontológico de um evento; a palavra retém sua relação intrínseca com o possível enunciado. Supondo-se que um processo do pensar até o final envolva a enunciação, encontra-se um elemento processual na palavra secreta. Na verdade, Platão já descrevera o pensamento como um diálogo da alma consigo mesma. Contudo, no pensamento do neoplatonismo medieval, a ideia de emanação implica mais do que um simples movimento físico de fluência. É no próprio processo de fluência que as coisas emanam. O "Uno de Plotino" não é concebido como privado nem esgotado, e o mesmo pode ser aplicado ao nascimento do Filho do Pai. Na emergência mental que ocorre no processo do pensamento há algo semelhante. Desse modo, Gadamer (1995, p. 424) segue dizendo que "o processo e emergência do pensamento não é um processo de mudança (motos), não é uma transição da potencialidade à ação, mas uma emergência, ela actus ex actus".

Entretanto, se considerada meramente como signo, a linguagem também pode perder seu caráter de função enquanto evento. Consequentemente, a linguagem torna-se instrumental. "Ela pode ser exprimida como princípio fundamental de que cada vez que as palavras assumam una mera função de signo, a conexão original entre falar e pensar, com a qual nos preocupamos se transforma em relação instrumental" (Gadamer 1995, p. 433). Pretendo argumentar que é isso precisamente que ocorreu com a maneira como a ciência moderna tentou explicar a Natureza.(...)

O verdadeiro ser da linguagem só pode estar presente na conversação, unicamente presente no "vir-à interpretação". Essa, então, é a forma mais fundamental de compreender a Natureza em termos não instrumentais, mas como algo que emerge à superfície na nossa hermenêutica do ouvir. O compreender "é um processo vivo em que a comunidade da vida existe" (Gadamer 1995, p. 446). (...)
O evento verbal significa que tanto nós mesmos quanto as coisas são preservados e alterados na linguagem. Nem nossa relação nem a interpretação que fazemos da Natureza são estáticas, como formularam Descartes, Galileu e Newton. (...)

Não devemos buscar sair da Natureza para transformá-la em objeto de compreensão, pois tal objetificação foi precisamente o que Descartes buscou fazer. É assim que ocorre o objetivismo das ciências naturais pós-cartesianas. Pois nossa experiência de mundo é verbal, assim como nossa experiência com a Natureza também é verbal e emerge do diálogo. (...)
Geralmente a ciência tem definido tudo que "supostamente exista em si mesmo" numa tentativa de garantir o controle do homem sobre todas as coisas e especialmente sobre a Natureza. Na verdade, o conhecimento nas ciências naturais é de fato o conhecimento a bem do controle e da dominação. (...)
Dessa forma, pode-se argumentar que, precisamente por essas razões, é equivocado o objetivo do mundo da ciência de conter a totalidade de tudo que existe.


A objetificação da ciência já considera a linguisticidade de uma experiência natural do mundo expresso na linguagem enquanto fonte de pré-concepções. A ciência efetua transgressões com métodos precisos de medição matemática para compensar as pré-concepções da linguagem. Desse modo, a ciência torna-se ferramenta por meio da qual a uniformização das experiências é realizada como passo no sentido do controle e da dominação das coisas e, por sua vez, da transformação da Natureza. Na própria natureza das questões formuladas e no seu processo investigativo, a ciência moderna busca controlar tudo que existe para assim ser vista como práxis e não teoria. Essas teorias são dominadas pela noção de construção de um sistema — isto é, "o conhecimento teórico é em si concebido em termos da vontade de dominar o que existe, é um meio e não um fim" (Gadamer 1995, p. 454).

Trecho do meu livro "Em Busca da Dimensão Ética da Educação Ambiental"
Mauro Grün - Doutor em Ética e Educação Ambiental pela University of Western Australia

Pessoas que influenciaram minha trajetória intelectual

on segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Mauro Grün nasceu em Lajeado (RS) em 1965. É graduado em Filosofia e mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutor em Ética e Educação Ambiental pela University of WesternAustralia. Em 1992 ganhou o prêmio Jovem Pesquisador durante o IV Salão de Iniciação Científica da UFRGS.
Mauro Grün e Marisa V. Costa (Orientadora de Graduação em Filosofia  - UFRGS)

Publicou vários artigos e livros. Entre eles, destacam-se Ética e Educação Ambiental: a conexão necessária (Editora Papirus). O conceito de holismo em ética ambiental e educação ambiental, que integra a coletânea Educação Ambiental: Pesquisa e desafios, organizado por M. Sato e I.C. M. Carvalho (editora Artmed), e Gadamer and the otherness of nature: Elements to environmental education no periódico Human Studies: A journal for Philosophy and Sociology. Em 2007 publicou o livro Em Busca da Dimensão Ética da Educação Ambiental (editora papirus). Nesse livro Grün propõe uma ética ambiental de parceria e diálogo com a natureza, uma simbiose na qual os elementos se combinam num regime de co-participação e integração, capaz de superar os limites impostos pelo pensamento cartesiano.

É amigo e admirador do filósofo Hans-Georg Flickinger (Kassel Pucrs) (orientador de mestrado), um dos maiores expoentes da filosofia Hermeneutica no Brasil, autor de “A caminho de uma pedagogia hermenêutica. 
Hans Georg Flickinger ( Orientador de meu Mestrado em Educação na UFRGS)

Na Austrália foi orientado pelo famoso filósofo ambiental Andrew Brennan (http://plato.stanford.edu/entries/ethics-environmental/ ), com quem teve a oportunidade de dialogar durante quatro anos. A tese de doutorado de Mauro Grün intitula-se “Gadamer and the Otherness of Nature: Philosophical foundations for environmental education”
Mauro Grün e Andrew Brennan (Orientador PhD em Filosofia na University of Western Australia)

Foi professor visitante do Center for EnviromentalPhilosophy da University of North Texas, onde contou com a valiosa colaboração d filósofo ambiental Eugene Hargrove, editor do Environmental Ethics, um dos mais prestigiados periódicos de Ética Ambiental do mundo. Participou da Cary Conference em New York, um momento inesquecível de confraternização e amizade por um planeta melhor. Mauro Grün declara-se um apaixonado pela filosofia ambiental e educação ambiental, mas afirma que a maior curtição de sua vida é sua filha Isabel. Atualmente mantém vínculo com o mestrado em educação da Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC), onde desenvolve temas ligados à Ética Ambiental, Educação Ambiental e, mais recentemente Estética Ambiental.

Jornais Financial Times e Wall Street Journal elogiam Marina Silva

on sexta-feira, 12 de setembro de 2014


"Em notícia publicada nesta quarta-feira, o Wall Street Journal destacou a atuação de Marina Silva em seu primeiro debate na televisão, classificando-a como forte tendo entrado há apenas uma semana na disputa presidencial. Segundo o Wall Street, em seu discurso, Marina atacou a falta de respostas de Dilma Roussef aos protestos do ano passado, que pediam melhores serviços públicos. Marina também criticou Aécio Neves do PSDB, por sua atuação na educação do estado de Minas Gerais enquanto foi governador.

Segundo o jornal americano, Marina foi alvo de perguntas dos outros seis candidatos que participavam do debate, mas fez do momento uma oportunidade para falar do seu desejo de um governo mais inclusivo com a melhora da educação, segurança pública e saúde.

Em entrevista para o Wall Street, David Fleischer, cientista político da Universidade de Brasília disse que o desempenho de Marina dissipou qualquer dúvida de que falta fôlego para concorrer ao cargo de presidente. “Marina foi o único candidato a apresentar propostas de seu futuro governo. A onda está aqui para ficar”, afirmou Fleischer ao jornal.

Além disso, segundo o Wall Street, o mercado tem reagido positivamente à candidatura de Marina. O índice de ações da Ibovespa subiu 0,7% no final da manhã de quarta-feira e o real foi negociado a US$2,26. Segundo o jornal, os investidores estão otimistas de que a economia do Brasil estaria em melhores mãos sob o comando ou de Marina ou de Aécio. O mercado de ações cresce, segundo o Wall Street, quando o apoio ao governo de Dilma oscila, cujas políticas têm sido criticadas por alimentar a inflação e prejudicar a competitividade do Brasil.

O debate desta terça-feira aconteceu apenas algumas horas depois da pesquisa, realizada pelo ibope, comparar as intenções de voto de Marina e Dilma. Os dados mostram que, em um possível segundo turno, Marina venceria Dilma com 45% dos votos, enquanto a atual presidente teria 36%.

No entanto, Dilma ainda lidera a pesquisa na primeira rodada de votação com 34% dos votos, contra 29% de Marina e 19% de Aécio.  Mesmo com esses dados, é quase certo que haja um segundo turno nessas eleições.

Apesar de Marina Silva estar passando por uma boa fase, alguns analistas afirmam que ainda é cedo para dizer que ela venceria as eleições. Marina tem mostrado uma grande capacidade de atingir um amplo espectro de eleitores, mas ainda não está claro se algumas posições conservadoras podem afastar parte do eleitorado jovem, que tem reforçado sua campanha. "Precisamos ver como Marina vai absorver a onda e de críticas de todos os outros candidatos e também como ela, que é uma pessoa muito conservadora e religiosa, irá responder essas perguntas sobre a sua posição a questões como o aborto e legalização das drogas”, disse Mauro Paulino, diretor do instituto de pesquisas Datafolha, para o Wall Street.


Segundo o Jornal o Ibope é a segunda pesquisa em que Marina, que só candidatou oficialmente no dia 20 de agosto, aparece à frente de Dilma. Seu companheiro de chapa, Eduardo Campos, que faleceu em um acidente de avião, não conseguiu ganhar força entre os eleitores, ao contrário de Marina, que agora aparece no topo das pesquisas. Além disso, o jornal destaca que o debate de terça-feira foi o primeiro de pelo menos outros quatro, até o primeiro turno das eleições em cinco de outubro."

Fonte: Jornal do Brasil, edição de Sexta-Feira, dia 12 de Setembro de 2014

Saiu no Wall Street Journal também...

"Os investidores estão acumulando ações brasileiras seguindo apenas uma regra simples: Quanto mais a presidente Dilma Rousseff cai nas pesquisas, mais os preços das ações sobem... 

Alguns investidores que haviam saído da maior economia da América do Sul, notaram essa transição."Nós compramos ações de empresas que particularmente não nos agradam porque elas estão muito baratas e mal administradas" diz Michel Reynal, gerente de portfolio da RS Investiments, que administra cerca de 25 bilhões. "Se houver qualquer mudança de governo, isso mudaria."

A natureza viva

on quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Gadamer (1995) salienta também que a principal diferença entre o pensamento filosófico e a ciência moderna se dá no contexto de interpretações divergentes da experiência verbal do mundo. A ciência moderna de fato desenvolveu o ideal da linguagem simbólica pura cujo objetivo era precisamente conquistar e dominar essa linguagem viva. Esse processo ocorreu tanto na matematização da ciência do século XVII quanto no pensamento neokantiano que interpretava o ideal platônico em termos de uma lei. No entanto, pode-se salientar que no mundo grego a coisa reteve ainda certa dignidade. A experiência verbalmente constituída ainda não expressa o que Heidegger denominou o pronto para usar que foi calculado e medido.


Experiências verbalmente constituídas como essas expressavam o que os seres humanos consideravam de valor. A compreensão de uma ética ambiental emerge desse modo exatamente por meio desse processo, visto que rejeita a metodologia de objetificação das ciências naturais. Para evitar ficar preso à postura metodológica das ciências naturais que vê a Natureza meramente como objeto a ser conquistado, é crucial que busquemos uma compreensão constituída verbalmente na linguagem viva. Então, é preciso enfatizar uma Natureza "viva", o sonho daqueles que pretendem superar o mecanicismo, o antropocentrismo e o reducionismo da ciência moderna. Assim, uma linguagem "viva" precisa emergir de nosso diálogo com a Natureza. Uma linguagem pura, não ambígua, presa no nível do simbolismo, não pode oferecer um meio de garantia de satisfação desse ideal ambientalista-dialógico.(...)

Ouvindo a Natureza
Assim deve ser enfatizado que os filósofos gregos não baseavam seus estudos sobre a compreensão do conhecimento na distinção entre sujeito e objeto que foi invocada pelos modernos como fonte de análise objetiva. Essa noção só emergiu com o pensamento moderno. Na verdade.
Gadamer (1995) argumenta precisamente que é necessário superar as restrições de tais estruturas de pensamento, caracterizadas como são por uma confiança no pensamento dicotômico cartesiano. Além disso, argumenta que tais erros estão intrinsecamente ligados a uma crença na linguagem como meio através do qual circule o significado. Em contraste com o sujeito/ objeto binário, a experiência hermenêutica baseia-se num diálogo entre a tradição e o intérprete. Especificamente, esse é o diálogo com a Natureza. Nesse contexto, o interrogador torna-se, desse modo, o próprio interrogado. Pois no processo de investigação das questões particulares da Natureza somos surpreendidos pelas respostas que são na verdade novas perguntas, só que agora com a Natureza no papel do pesquisador, colocando perguntas. O ponto é que no processo de fazer perguntas sobre a Natureza, emerge algo novo na linguagem.

Busto de Sócrates - University of Western Australia 

A Natureza reemerge à existência ao mesmo tempo em que se apresenta. Nesse diálogo dá-se forma a um novo espaço dialógico, um espaço em que nenhum participante é diretamente envolvido. Gadamer define essa relação dialética única como ouvir: "Não é que só o que ouve também é endereçado, mas o que é endereçado precisa ouvir quer queira ou não" (1995, p. 462). Para o filósofo alemão, esse fenômeno de escutar é fundamental para a experiência hermenêutica. A essa altura, a escrita torna-se obstáculo para a genuína tarefa de escutar.

A experiência hermenêutica é assim centralmente dependente da linguagem enquanto evento. Essa compreensão é, então, o desafio mais radical para a metodologia científica moderna. Ela supõe que, numa prática crítica mais genuinamente sintonizada com as necessidades do ambiente, esse ouvir dialético conferiria à Natureza uma voz falante. Gadamer define tal processo como a capacidade da "escuta" hermenêutica. Além disso, observa que, para essa hermenêutica emergir, urna consciência de um Outro inteiramente participante precisará ser criada, um Outro que existe como mais do que um simples objeto de pesquisa. Para ele, a linguagem desse diálogo não denota uma fala meramente em termos de gramática e sintaxe, mas um diálogo caracterizado pelas conotações mais ricas de tudo que é dito ou deduzido na tradição. Gadamer (idem) salienta que, na metodologia analítica moderna, a coisa examinada é objetificada. Isso é o contraste direto com a forma corno os gregos pensavam e agiam, pois em seu trabalho a coisa mesma reforça seu ser. Argumentar uma tese da fala como meio de diálogo é atribuir uma visão marcadamente distinta da dialética grega e também da metodologia científica moderna. Isso dito, é importante observar que a hermenêutica filosófica não se preocupa com a eliminação do poder da fala, uma preocupação que era central para a dialética grega. Contudo, mantém algumas semelhanças, especificamente na medida em que continue sustentando a necessidade de compreender algo no contexto de suas ações, como um evento que resulta de um escutar ininterrupto.

A linguagem revela-se em uma natureza dialética e a compreensão de uma Natureza Viva é sempre, desse modo, um vir-à-fala. Consequentemente, nossa experiência com a Natureza é hermenêutica. Na compreensão hermenêutica, a Natureza é expressa sempre de um modo novo na linguagem. A compreensão hermenêutica da Natureza desse modo determina tanto a essência de qualquer diálogo com a Natureza quanto a estrutura lógica de uma questão e a abordagem da resposta. O significado de Natureza é determinado pelo horizonte das questões. Com o propósito de entender a complexidade dessa compreensão, é importante apreendermos também o contexto que origina cada questão. Pois cada questão é já uma resposta à outra questão. Nenhuma compreensão genuína da Natureza é possível sem uma consciência dessa estrutura. Buscar compreender o que está por trás do que é dito é simultaneamente buscar ir além do que tem sido dito.

Coffee break - Western Australia

A compreensão da Natureza é viabilizada apenas quando apreendemos o horizonte de uma questão e, consequentemente, assim fazendo, abrimos o leque de possibilidades de outras respostas. Para Gadamer (1995), a lógica das ciências humanas é de fato a lógica do fazer a pergunta. Ele acredita, também, que essa lógica é perfeitamente adaptada a uma compreensão mais frutífera de nossa relação com a Natureza. A concepção prévia da completude constitui o axioma da hermenêutica. Além disso, tal condição é elementar para toda e qualquer compreensão da Natureza. Ela não é uma compreensão formal. "Assim a interpretação tem a estrutura dialética de todo ser finito, histórico, na medida em que toda interpretação precisa começar em algum lugar e buscar suplantar o unilateralismo que essa inevitavelmente produza" (idem, p. 471). É por essas razões que estou argumentando que a abordagem hermenêutica diante do ambiente é superior à monológica e anônima do ambiente que é típica da ciência moderna que o trata meramente como um objeto. Por meio de uma interpretação hermenêutica, é possível desenvolver uma atitude mais humilde diante da Natureza e reconhecer que nossa compreensão é sempre incompleta. A dialética da abordagem da pergunta e da resposta determina a natureza da interpretação como evento.

Nossas próprias "apropriações" da Natureza são determinadas historicamente. Cada uma dessas "apropriações" é a experiência de um "aspecto" da coisa. Tal abordagem leva, desse modo, a uma interpretação especulativa da Natureza, em vez de uma interpretação prescritiva. Essa interpretação é imediatamente uma entre várias e sempre unicamente diferente, questão que retomarei quando abordar o debate entre Derrida e Gadamer. O ponto é então que um íon de compreensão da Natureza não é uma replicação de algo, mas, em vez disso, a criação de uma nova interpretação. Em suma, qualquer interpretação da Natureza é inseparável de uma linguagem "viva". "Nossa investigação tem sido guiada pela ideia básica de que a linguagem é um meio em que eu e o mundo nos encontramos ou, em vez disso, manifestamos nosso estar junto" (Gadamer 1995, p. 474).

Trecho do meu livro "Em Busca da Dimensão Ética da Educação Ambiental"
Mauro Grün - Doutor em Ética e Educação Ambiental pela University of Western Australia

Gadamer e a Natureza, alguns dos nossos desafios

on segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Mauro Grün em Perth , Australia

“Desde os séculos XVI e XVII, tem-se ido ao encalço do modernismo com um enfoque otimista e implacável quanto ao futuro e uma simultânea deposição da memória social e dos arredores naturais como coisas de valor secundário, duvidoso e mesmo irrelevante. O trabalho de Mauro Grün, inequivocamente, confronta o desafio do projeto de Bacon e Descartes que recebeu ímpeto extra de seguidores do Iluminismo e do ideal de racionalidade instrumental que brotou do trabalho destes. O desejo de dominar a Natureza levou-nos à beira do precipício. Nosso esquecimento do que somos e de nossa relação com a Natureza levou o modernismo a precisar confrontar suas próprias desilusões. Todo o projeto da Idade Moderna baseia-se numa concepção desvairada de nossas faculdades de criação. Não podemos apagar tudo e recomeçar do nada, pois qualquer coisa que fizermos dependerá, em última análise, da própria Natureza.  (...)
 
Nenhum filósofo contemporâneo busca a verdade no sobrenatural. Ainda assim, há coisas que as ciências não conseguem nos revelar, coisas que não estão sujeitas à observação. Portanto, apesar de toda sua habilidade, apesar de alegar que fornece toda a verdade sobre o mundo, a ciência em si não tem qualquer autoridade no assunto. De fato, a autoridade das ciências em si e suas alegações de verdade e objetividade estão profundamente implicadas como causas da modernidade. Elas descrevem o mundo como um sistema mecânico, sem vida, cujos componentes são dissecados em pormenores cada vez mais detalhados por meio da biologia molecular, da química e da física. Em vez de fornecerem a verdade sobre nosso relacionamento com a Natureza, em vez de abrirem canais de comunicação entre os seres humanos e o mundo, essas ciências estimulam a ideia de que estamos sozinhos numa terra selvagem, capazes apenas de nos comunicarmos com outros seres humanos ou talvez com um ou dois mamíferos superiores.
O que, então, Grün pretende fazer em face desse desafio? As verdades das ciências, apesar de toda sua objetividade e neutralidade estudadas, não contribuem muito para o desvelo de nossas relações com a Natureza. (...)

Grün sabiamente evita o apelo a qualquer concepção relativista de verdade, objetivando, em vez disso, uma abordagem mais modesta, que vise colocar-nos novamente em contato com o mundo ao nosso redor, que nos torne mais sensíveis ao que a Natureza busca nos dizer. Como ele fará isso?
Se a verdade não é tanto a correspondência dos fatos, mas muito mais uma espécie de comprometimento, então há ainda uma forma de revelar algumas das ilusões dos nossos tempos. Vamos admitir que a verdade seja um eterno compromisso com os outros por meio do diálogo. Assim sendo, a verdade defere a autocrítica e a crítica social como elementos essenciais à postura ética. A verdade não é apenas elemento central de um sistema democrático, mas também a oportunidade de explorar nossa situação de uma forma que reconheça nossa própria falibilidade e a dos outros. Pode essa compreensão dialógica da verdade ajudar-nos a chegar a ponto de, como colocava Heidegger, permitir que o mundo fale? Grün busca neste livro fazer precisamente isto — mostrar como podemos adotar uma postura que permita que o mundo se comunique conosco, e assim fazendo, possibilite que tenhamos acesso — sempre fragmentado e parcial — a algumas das ilusões que fiamos em torno de nós mesmos e do mundo. (...)

Como coloca Mauro Grün, o encontro com a Natureza por meio da dialética do ouvir é entrar na linguagem da Natureza. Na verdade, conforme salienta Gadamer, o diálogo - no seu devido uso - é sempre transformador. Saber que somos falíveis - que podemos estar, e frequentemente estamos errados — é o cerne da concepção de diálogo de Gadamer e, portanto, não é de surpreender que o objetivo que Grün instaura para a educação ambiental é o ensino da humildade, do respeito e da importância do diálogo. De modo sábio, mais como filósofo do que como educador, ele não apresenta qualquer plano de ensino. Em vez disso, delineia os objetivos  da educação ambiental concebida como educação para uma comunidade e o compartilhar do que é comum com a Natureza. Os céticos perguntarão se realmente há perspectivas da construção de uma comunidade com a Natureza e se um diálogo aqui não seria apenas uma metáfora. Sobretudo, o próprio Francis Bacon, um dos arquitetos do modernismo, gostava muito da noção de que questionamos a Natureza, arrancando-lhe as respostas na base do tormento e da tortura quando necessário. O trabalho de Grün força-nos a pensar novamente sobre essa velha ideia e a levar a sério a noção de que a trajetória do modernismo por tempo demais tem se caracterizado pela arrogância do torturador (...)

Se Grün está certo, há uma perspectiva para um novo despertar na educação, um despertar que leve tanto o mundo quanto os seres humanos para a presença mútua e propicie uma forma de reanimação da Natureza, cuja vitalidade tem sido dragada pelo materialismo negligente da modernidade.”  (...)

Trecho de Andrew Brennan no prefácio do meu livro "Em busca da Dimensão Ética da Educação Ambiental"

Sugestão de leitura sobre Gadamer: 


Autoria de Jeff Malpas